Nas redes sociais de grande massa, as pessoas não leem o que você escreve por interesse naquilo que você pensa. Elas leem para decidir o que sentir por você — ou o conforto de saber que você pensa igual a elas, ou a raiva por você pensar diferente.
A sua opinião vira apenas um crachá: ela não diz o que você pensa, diz de que lado você está. Sua opinião não agrega nada a ninguém. Ela apenas define se você será aplaudido ou odiado.
Crachá não se lê; confere-se, com tom de superioridade e supervisão. Basta um olhar rápido, uma palavra-chave, um substantivo fora do lugar, e o veredito está dado. Ninguém chega ao segundo parágrafo, por preguiça, ansiedade ou incapacidade cognitiva. O argumento, que precisa de oxigênio cerebral para existir, não tem tempo de nascer.
Ninguém conhece a fundo a pessoa que se posciona, mas porta-se, contra ela, como detentor da verdade, da virtude, do discernimento para julgar quem escreve. Discernimento sem estudo? Perdão. Não existe. Quantas páginas a pessoa – que se julga dona da verdade e do conhecimento – já leu sobre aquele assunto? Quantos palestras já ministrou? Quantos livros já escreveu? Quantos documentários sérios ou filmes já viu? Se o tema for política, temos mais de 90% de chance de a resposta ser zero.
Brasileiro é especialista em futebol, mesmo sendo horroroso em campo. Brasileiro é especialista em política, mesmo sem ter lido uma página sequer de Maquiavel, Platão, Aristóteles, Hobbes, Locke, Cheterston, Burke, Friedman.
Nesse ambiente hostil e insalubre, expor pensamento é arriscado. Ninguém está interessado em saber o que você pensa de verdade. Como eu disse, as pessoas querem apenas amar ou odiar com base em seu precário conhecimento. Quem pondera parece fraco; quem se posiciona experimenta ódio gratuito; quem duvida parece traidor; quem diz “depende” é tratado como covarde.
A nuance, que é a forma mais honesta da inteligência, passa a ser vista como algo errado. Sobrevive quem grita em tons primários e infantis. E o pior é que nos adaptamos. Começamos a escrever para a plateia, não para a verdade. Medimos as palavras por aquilo que elas vão provocar. Aos poucos, deixamos de dizer o que pensamos e passamos a pensar apenas o que é seguro dizer.
Até porque… é menos estressante viver sossegado, sem nenhum inútil enchendo o seu saco.
O diálogo real pressupõe a possibilidade de sair diferente de como se entrou. Entretanto, nas redes, ninguém entra para sair diferente. Entra-se para ratificar, para pertencer, para tentar vencer. Tudo, menos ler. O conteúdo sempre perde. A palavra perde. A intelectualidade fracassa.
Uma multidão que julga tudo e não se compromete a aprender nada não está pronta para experimentar evolução.
Talvez o gesto mais revolucionário hoje seja o mais antigo de todos: ler até o fim. Ouvir antes de rotular. Aceitar que o outro pode estar errado sem ser inimigo, e que nós podemos estar errados sem deixar de ser quem somos.
Quantas vezes você já mudou de ideia sobre política? Será que você se acha mesmo certo em todos esses anos de cidadão? Nada do que você viveu foi capaz de agregar algo para você rever alguns conceitos? Nada do que você leu abriu a sua mente a ponto de colaborar com novas percepções? Você leu algo?
Tenho a sensação, cada dia mais, de que somente sem o crachá social a gente poderá voltar a conversar.

Professor Fabrício Dutra Professor de língua portuguesa há nove anos, formado pela UFRJ. Nasci no Rio de Janeiro, mudei-me para Brasília em 2012, e foi a cidade onde minha carreira começou de verdade. Ministrei aulas de Língua Portuguesa principais cursos preparatórios da capital dos concursos e já ajudei milhares de alunos a conseguirem algo que eles, de certa forma, perderamm impossível: aprender Gramática da Língua Portuguesa e fazer uma em condições reais de passar.






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