Nos dias de hoje, tem-se observado, felizmente, uma enorme campanha de conscientização coletiva – que incentiva a população a adotar determinados cuidados. O zelo pela saúde física lidera o ranking desse tipo de estímulo positivo.
Antes, era comum notar pessoas consumindo tabaco livremente, sem que isso fosse motivo de constrangimento social. Hoje, o normal é deparar-se com pessoas que, mesmo sendo fumantes assíduos, reconhecem a necessidade de abandonar o hábito. É de conhecimento geral que o cigarro compromete a saúde e que esse vício precisa ser eliminado da rotina; entretanto, essa urgência nem sempre foi tão evidente. Graças à mídia, à publicidade e a legislações progressivamente mais rígidas, a mentalidade mudou de forma significativa.
Ao lado dos cuidados com a saúde corporal, com o alinhamento da arcada dentária, com a estética capilar e com a forma de se vestir, o cuidado com o bom uso da língua tem se revelado, atualmente, uma espécie de necessidade comum. Como professor de Português, percebo – a cada dia mais – pessoas preocupadas com o respeito (ou desrespeito) à norma-padrão da língua em seu discurso, seja falado ou escrito. Recebo diariamente centenas de dúvidas de alunos oriundos de todo o território nacional, o que constitui um excelente indicador dessa mudança. Além dos que se preparam para concursos e avaliações, tenho contato com pessoas simplesmente interessadas em comunicar suas ideias de maneira mais clara e coerente.
Essa mudança de postura não é fortuita. Ela acompanha um movimento mais amplo de valorização da imagem pessoal e profissional, no qual a forma de se expressar passa a ser compreendida como parte constitutiva da identidade de cada indivíduo perante a sociedade. Assim como a apresentação pessoal comunica algo sobre quem somos, a maneira como articulamos o pensamento em palavras – organizadas segundo determinadas convenções – também comunica, e frequentemente antecede qualquer outro julgamento em contextos formais.
A gramática normativa do português é muito mais do que um conjunto de regras a serem decoradas e aplicadas de forma mecânica, como se fizessem parte apenas do inconsciente escolar. O acesso ao português-padrão é um dos maiores instrumentos de ascensão social, uma vez que o segmento da população com contato mais amplo com o mundo letrado tende a ter mais chances de alcançar prosperidade acadêmica e profissional, tanto pela produção textual quanto pela expressão oral.
Isso se explica, em grande medida, pelo papel que a linguagem exerce como critério – nem sempre justo, mas real – de avaliação em processos seletivos, entrevistas de emprego, apresentações públicas e interações corporativas. Um texto bem escrito ou uma fala bem articulada frequentemente abrem portas antes mesmo que o conteúdo da mensagem seja plenamente avaliado. Reconhecer esse mecanismo não significa validá-lo de forma acrítica, mas sim compreender a realidade em que vivemos, a fim de melhor nos posicionarmos diante dela.
É preciso reconhecer que quem não tem qualquer acesso à forma considerada padrão de comunicação – ou que passa a vida sem contato frequente com a leitura – tende a enfrentar uma rotina cíclica de dificuldades no contexto competitivo em que vivemos. No entanto, o domínio do “bom português” não deve ser confundido com instrumento de preconceito, tampouco o desconhecimento de regras gramaticais deve ser equiparado à ignorância. Devido a diversos fatores sociais e históricos, uma parcela significativa da população simplesmente não teve acesso pleno ao universo da leitura e da escrita formal. O ideal seria que o acesso à gramática normativa fosse, de fato, democratizado, em vez de a norma culta ser tratada como território exclusivo de poucos ou, pior, como instrumento de exclusão.
Essa distinção é central: variação linguística e erro não são sinônimos. Todo falante de português domina, com naturalidade, ao menos uma variedade da língua – aquela absorvida em seu ambiente familiar e social. O que se propõe, ao se defender o ensino da norma culta, não é a substituição dessa variedade nem a deslegitimação de outras formas de falar, mas sim a ampliação do repertório linguístico de cada indivíduo, de modo que ele possa transitar com desenvoltura entre diferentes situações comunicativas – da conversa informal entre amigos à redação de um ofício, de uma mensagem de texto a uma entrevista de emprego.
A língua portuguesa não faz parte da nossa vida apenas durante uma aula. É por meio da linguagem que nos apresentamos ao mundo. É por meio dela que abrimos ou fechamos portas no universo corporativo ou acadêmico. É por meio dela que nos comunicamos, defendemos ideias, construímos argumentos e, em última instância, exercemos cidadania.
Repudiando qualquer preconceito linguístico, alertando quanto às adequações e inadequações de cada contexto, conscientizando sobre a legitimidade das variantes, orientando sobre o respeito às regras e às situações, e ensinando que o uso adequado da língua portuguesa deve ser alvo de atenção – sobretudo em situações formais –, deve-se tratar o “bom português” com o mesmo cuidado dedicado à escolha da roupa em diferentes ocasiões, à forma física ou à saúde mental e corporal.
A norma culta é uma das variantes da língua; deve ser considerada, estudada e valorizada, sem que isso implique desprezo pelas demais formas de expressão. Afinal, a língua portuguesa está em tudo.

Professor Fabrício Dutra Professor de língua portuguesa há nove anos, formado pela UFRJ. Nasci no Rio de Janeiro, mudei-me para Brasília em 2012, e foi a cidade onde minha carreira começou de verdade. Ministrei aulas de Língua Portuguesa principais cursos preparatórios da capital dos concursos e já ajudei milhares de alunos a conseguirem algo que eles, de certa forma, perderamm impossível: aprender Gramática da Língua Portuguesa e fazer uma em condições reais de passar.






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