Linhas do desejo

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Linhas do desejo

Fabrício Dutra
Fabrício Dutra Prof. de Língua Portuguesa
28 de dez de 2024 3 min de leitura
Linhas do desejo

Brasília, símbolo do modernismo e Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, é caracterizada por vias expressas e poucas calçadas, priorizando o trânsito de automóveis. A cidade é visualmente impressionante, mas pouco acolhedora para quem anda a pé. Andar a pé em Brasília é um ato de resistência. Eu, criado no Rio de Janeiro, cidade em que insistentemente dizendo que “dá para ir a pé” para qualquer lugar, mudei completamente de ideia quando me mudei para cá.

Andar a pé por aqui dá preguiça. “Tudo é muito longe”. Um dos motivos é o fator visual por meio do qual enxergarmos o horizonte (devido ao fato de estarmos no planalto). Quando você enxerga a distância no horizonte, sem morros que estabeleçam grandes fronteiras pelo caminho, a preguiça vence.

Mas uma das coisas que me chamaram atenção, num primeiro momento, foram os caminhos desalinhados produzidos naturalmente pelo ser humano pela grama.

Observe a imagem abaixo:

Quem foi o primeiro transeunte que decidiu cortar caminho justamente a esta altura? E, para ter desgastado tanto a grama, certamente não foi uma pessoa só. Depois que a grama some, eu até entendo o fato de que as pessoas, em um efeito boiada, passem a seguir esse atalho. Porém, até a grama se desgastar, é um fato intrigante esta linha ter surgido do nada. A partir do desgaste da grama, nasce o caminho.

O brasiliense, com seu toque niemeyeriano, interveio na arquitetura da cidade planejada e tombada e construiu sua própria calçada, com linhas geométricas construídas de acordo com o seu desejo geográfico, sem necessidade de licitação para obras superfaturadas.


Após essa reflexão, eu pesquisei e descobri que isso tem nome: linhas do desejo (ou caminhos do desejo), que nada mais são do que trilhas informais criadas pelos passos dos pedestres em busca de rotas mais diretas e convenientes.

Esses trajetos são uma expressão popular da criatividade e da necessidade prática. Eles conectam paradas de ônibus, edifícios e espaços públicos, muitas vezes ignorando calçadas pensadas mais para agradar a visão aérea do que para facilitar o uso cotidiano.

O resultado é um tecido vivo de interação entre as pessoas e o espaço urbano, mostrando que, mesmo em uma cidade tão meticulosamente planejada, o cotidiano encontra formas de se sobrepor à teoria. A dinâmica cotidiana triunfa sobre a rigidez da teoria brutalista.

Para o brasiliense, essas trilhas representam mais do que um simples atalho: elas simbolizam apropriação e resiliência. São marcas do espírito de adaptação de quem vive em uma cidade projetada para o carro, mas que precisa ser navegada a pé. É como se o cidadão dissesse: “Essa cidade também é minha, e vou adaptá-la à minha realidade”.

Tudo isso reflete uma espécie de diálogo entre o ideal modernista (com toques do brutalismo soviético) e a prática diária. Ele deixa claro que as cidades não são estáticas, mas construídas e reconstruídas continuamente por aqueles que nelas habitam. Assim, os caminhos pela grama, com sua aparente simplicidade, contam uma história rica: a do brasiliense que, com passos persistentes, deixa sua marca em uma cidade icônica e monumental.

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Prof. Fabrício Dutra

Prof. Fabrício Dutra

Formado em Letras pela UFRJ, com mais de 16 anos dedicados ao ensino de Língua Portuguesa para concursos públicos. Especialista nas principais bancas do Brasil — CESPE, FGV, Quadrix e mais.

UFRJ · Letras 16+ anos 5.000+ alunos CESPE · FGV · Quadrix
1 Comentário
  • Renata 08/01/2025 às 13:09

    Quando estive em Brasília pensei exatamente sobre como deveria ser complicado andar a pé. Rs.

    Responder

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