onde está o meu direito?

A sociedade contemporânea impõe uma hiperconectividade quase inescapável, em que escolher momentos de ausência se tornou um pecado social. Já percebeu que o direito ao silêncio e ao afastamento, antes vistos como momentos naturais da existência humana, agora é interpretado como indício de descaso, desinteresse ou até mesmo afronta.

Vivemos em uma era da “transparência”, na qual a exposição constante e a comunicação ininterrupta são exigências tácitas da vida social e profissional. Aquele salutar espaço para a introspecção, a contemplação e até mesmo a regeneração do espírito, passou a ser visto como um problema a ser corrigido (“Você nem olha mais as minhas mensagens!” / “Você sumiu!” / “Eu te fiz alguma coisa para você sumir?”. A ausência deixou de ser um direito, passou a ser um erro.

Essa lógica está enraizada na transformação do tempo e das relações humanas. Se antes a espera fazia parte da vida, hoje ela é intolerável. A tecnologia que prometia facilitar a comunicação acabou nos escravizando quase que por completo. Estar “ausente” não significa mais estar ocupado ou precisando de um momento para si mesmo; significa falhar na manutenção dessa “essencial” presença digital.

O direito ao silêncio e à ausência precisa ser resgatado como um ato de liberdade. Não responder imediatamente não é negligência; é um ato de autonomia sobre o próprio tempo. Desconectar-se não significa isolamento; Ele é uma reconquista da presença real, do encontro consigo mesmo e com o mundo ao redor.

A pergunta que devemos nos fazer não é por que o silêncio incomoda tanto os outros, mas sim por que aceitamos essa imposição de estarmos sempre acessíveis. A ausência e o silencio também comunicam. Hoje em dia, na era da hiperconectividade, aprender a se ausentar certamente é um dos últimos gestos verdadeiramente revolucionários.

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