Vamos falar do passado?

Português para Concursos

Vamos falar do passado?

Fabrício Dutra
Fabrício Dutra Prof. de Língua Portuguesa
22 de out de 2026 9 min de leitura
Vamos falar do passado?

Aprenda a identificar os três tempos do passado, reconhecer suas marcas e compreender as diferenças de sentido mais cobradas pelas bancas examinadoras.

Quando estudamos os tempos verbais do modo indicativo, encontramos três pretéritos: pretérito perfeito, pretérito imperfeito e pretérito mais-que-perfeito.

Os três estão relacionados ao passado, mas não expressam exatamente a mesma ideia. Cada um apresenta uma maneira diferente de situar os acontecimentos no tempo.

Para as provas de concursos públicos, é importante compreender duas características fundamentais:

  • A formação verbal: como reconhecer cada tempo por meio de suas marcas.
  • O valor semântico: qual sentido o tempo verbal transmite no contexto.

Vamos estudar cada um deles.


1. PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO

O pretérito perfeito do indicativo é utilizado, principalmente, para indicar uma ação concluída no passado.

Isso significa que o acontecimento é apresentado como realizado, independentemente de sua duração.

Observe:

  • Ontem, eu cantei durante a apresentação.
  • Na semana passada, ele estudou para a prova.
  • No ano passado, nós viajamos para o Nordeste.
  • Os candidatos resolveram todas as questões.

Em todos os exemplos, as formas verbais indicam acontecimentos passados apresentados como concluídos.

1.1. Como reconhecer o pretérito perfeito?

Uma estratégia interessante é utilizar a lógica temporal.

No pretérito perfeito, não precisamos decorar uma única marca de conjugação. Podemos associar o verbo a expressões que indiquem acontecimentos passados, como ontem, na semana passada e no ano passado.

Vamos utilizar dois verbos como referência: CANTAR e ENTENDER.

PessoaCantarEntender
Eucanteientendi
Tucantasteentendeste
Elecantouentendeu
Nóscantamosentendemos
Vóscantastesentendestes
Elescantaramentenderam

Observe a aplicação:

  • Na semana passada, ele cantou.
  • No ano passado, ela entendeu o conteúdo.
  • Ontem, nós cantamos durante a festa.

Perceba que o tempo verbal apresenta o acontecimento como concluído.

ATENÇÃO PARA A PROVA!

O pretérito perfeito não deve ser identificado exclusivamente pela presença de expressões como ontem ou na semana passada. Essas expressões apenas facilitam a compreensão.

A identificação correta depende da forma verbal e de seu emprego no contexto.


2. PRETÉRITO IMPERFEITO DO INDICATIVO

O pretérito imperfeito é empregado para indicar uma ação que acontecia no passado, frequentemente associada à ideia de habitualidade, continuidade ou repetição.

Compare:

  • Eu joguei futebol naquele campo.
  • Eu jogava futebol naquele campo.

Na primeira frase, o verbo joguei apresenta a ação como concluída. A frase não informa, necessariamente, se essa atividade era habitual.

Na segunda, o verbo jogava sugere que a prática de jogar futebol naquele campo fazia parte de uma rotina no passado.

Portanto, a diferença entre os tempos não está apenas no momento em que a ação ocorreu, mas também na maneira como ela é apresentada.

2.1. As marcas do pretérito imperfeito

Diferentemente do pretérito perfeito, o pretérito imperfeito apresenta marcas regulares que facilitam seu reconhecimento.

A) Verbos da primeira conjugação (-AR)

Os verbos regulares terminados em -AR apresentam a marca -VA-.

Observe:

VerboPretérito imperfeito
Cantarcantava
Estudarestudava
Jogarjogava
Trabalhartrabalhava
Falarfalava

Exemplos:

  • Ele cantava todas as noites.
  • O aluno estudava diariamente.
  • Nós jogávamos futebol aos domingos.
  • Ela trabalhava naquela empresa.

B) Verbos da segunda e da terceira conjugações (-ER e -IR)

Os verbos regulares terminados em -ER e -IR apresentam a marca -IA-.

Observe:

VerboPretérito imperfeito
Entenderentendia
Vendervendia
Beberbebia
Partirpartia
Assistirassistia

Exemplos:

  • Ele entendia as explicações.
  • O comerciante vendia produtos naquela região.
  • Nós assistíamos às aulas diariamente.
  • Ela partia sempre no mesmo horário.

ATENÇÃO!

As marcas -VA- e -IA- são características dos verbos regulares. Existem verbos irregulares que apresentam outras formas, como era, tinha e vinha.

2.2. Os sentidos do pretérito imperfeito

Embora seja frequentemente associado à habitualidade, o pretérito imperfeito apresenta outros valores semânticos.

I. Ação habitual no passado

  • Quando criança, eu brincava naquela praça.
  • Meu pai trabalhava aos sábados.
  • Todos os dias, ela caminhava pela manhã.

Nesses exemplos, os verbos indicam acontecimentos que se repetiam no passado.

II. Ação em desenvolvimento no passado

  • Quando o telefone tocou, eu estudava.
  • Enquanto a professora explicava, os alunos anotavam o conteúdo.

Observe que as ações expressas por estudava, explicava e anotavam são apresentadas em desenvolvimento.

III. Descrição de situações passadas

  • A casa era muito antiga.
  • O menino estava cansado.
  • Naquela época, a cidade tinha poucas ruas.

Nesses casos, o pretérito imperfeito descreve estados ou características de uma situação passada.

RESUMINDO: o pretérito imperfeito pode expressar uma ação habitual, contínua ou uma situação descritiva no passado.


3. PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO DO INDICATIVO

O pretérito mais-que-perfeito é utilizado para indicar uma ação passada anterior a outra ação também situada no passado.

Vamos compreender essa definição por meio de um exemplo:

Quando entrei na faculdade, eu já completara dezessete anos.

Nessa construção, existem dois acontecimentos:

  1. Completei dezessete anos.
  2. Entrei na faculdade.

Qual aconteceu primeiro?

O aniversário de dezessete anos.

Portanto, a forma verbal completara indica uma ação anterior à entrada na faculdade.

Essa é a principal característica semântica do pretérito mais-que-perfeito.

3.1. Pretérito mais-que-perfeito simples

O pretérito mais-que-perfeito simples apresenta, regularmente, a marca -RA- átona.

Observe:

VerboMais-que-perfeito simples
Cantarcantara
Estudarestudara
Jogarjogara
Entenderentendera
Fazerfizera
Partirpartira

Exemplos:

  • Quando cheguei, ele já cantara.
  • Ao iniciar a prova, o candidato já estudara todo o conteúdo.
  • Quando a professora explicou o assunto, o aluno já o entendera.
  • Antes da reunião, o diretor já fizera o comunicado.

Em todas essas construções, a forma verbal indica um acontecimento anterior a outro momento passado.

CUIDADO COM A ACENTUAÇÃO!

Compare:

  • Ele jogara naquela equipe.
  • Ele jogará naquela equipe.

Embora sejam semelhantes na escrita, as formas pertencem a tempos verbais diferentes.

Jogara: pretérito mais-que-perfeito do indicativo.

Jogará: futuro do presente do indicativo.

A diferença também está na tonicidade: em jogara, a sílaba tônica é ga; em jogará, a sílaba tônica é rá.

3.2. Pretérito mais-que-perfeito composto

O pretérito mais-que-perfeito também pode aparecer na forma composta.

Sua estrutura é:

TER ou HAVER no pretérito imperfeito + PARTICÍPIO do verbo principal.

Observe:

Forma simplesForma composta
Ele cantaraEle tinha cantado
Ele estudaraEle tinha estudado
Ele entenderaEle tinha entendido
Ele fizeraEle tinha feito
Ele partiraEle havia partido

Compare as frases:

  • Quando entrei na faculdade, eu já completara dezessete anos.
  • Quando entrei na faculdade, eu já tinha completado dezessete anos.

As duas construções expressam a mesma relação temporal: o aniversário aconteceu antes da entrada na faculdade.

Na primeira frase, utilizamos o pretérito mais-que-perfeito simples.

Na segunda, utilizamos o pretérito mais-que-perfeito composto.

É importante observar que, na língua portuguesa contemporânea, a forma composta é muito mais frequente na comunicação cotidiana.

Por isso, é mais comum ouvirmos:

Quando cheguei, ele já tinha saído.

Do que:

Quando cheguei, ele já saíra.

As duas construções, entretanto, são gramaticalmente corretas.


4. COMO DIFERENCIAR OS TRÊS PRETÉRITOS?

Observe as seguintes construções:

I. Ele cantou.

O verbo está no pretérito perfeito e apresenta uma ação concluída no passado.

II. Ele cantava.

O verbo está no pretérito imperfeito e pode expressar uma ação habitual ou em desenvolvimento no passado.

III. Ele cantara.

O verbo está no pretérito mais-que-perfeito e, em um contexto adequado, expressa uma ação anterior a outra ação passada.

IV. Ele tinha cantado.

A locução verbal está no pretérito mais-que-perfeito composto e pode apresentar o mesmo valor temporal de cantara.

Observe o quadro comparativo:

Tempo verbalSentido principalExemplo
Pretérito perfeitoAção concluída no passadoEle cantou.
Pretérito imperfeitoAção habitual ou em desenvolvimento no passadoEle cantava.
Mais-que-perfeito simplesAção anterior a outra ação passadaEle cantara.
Mais-que-perfeito compostoAção anterior a outra ação passadaEle tinha cantado.

5. COMO AS BANCAS COBRAM ESSE CONTEÚDO?

As bancas examinadoras costumam explorar os tempos verbais de duas maneiras principais.

5.1. Reconhecimento morfológico

Nesse tipo de questão, o candidato precisa identificar o tempo verbal empregado.

Exemplo:

Durante a infância, o menino brincava diariamente naquela praça.

O verbo brincava está no pretérito imperfeito do indicativo.

Além de apresentar a marca -VA-, a forma verbal expressa uma ação habitual no passado.

5.2. Reconhecimento do valor semântico

Nesse caso, o candidato precisa compreender o sentido que a forma verbal produz no contexto.

Observe:

Quando a equipe chegou ao estádio, o jogo já começara.

O verbo começara indica uma ação anterior à chegada da equipe.

Por isso, está no pretérito mais-que-perfeito do indicativo.

A banca também poderia propor a substituição de começara por tinha começado.

Nesse contexto, a substituição preservaria a relação temporal entre os acontecimentos.

5.3. Alteração do sentido pela substituição verbal

Compare:

  • Na infância, ele jogava futebol naquele campo.
  • Na infância, ele jogou futebol naquele campo.

As duas frases apresentam acontecimentos situados no passado.

Entretanto, a primeira sugere uma prática habitual, enquanto a segunda apresenta a ação como concluída, sem necessariamente indicar repetição.

Assim, a substituição de um tempo verbal por outro pode alterar o valor semântico da construção, mesmo quando ambas as formas estão gramaticalmente corretas.


6. REVISÃO FINAL PARA A PROVA

PRETÉRITO PERFEITO

  • Apresenta uma ação concluída no passado.
  • Pode ser reconhecido pela conjugação e pelo contexto.
  • Exemplos: cantei, cantou, entendi, fez.

PRETÉRITO IMPERFEITO

  • Pode indicar ação habitual ou em desenvolvimento no passado.
  • Também é empregado na descrição de situações passadas.
  • Nos verbos regulares da primeira conjugação, apresenta a marca -VA-.
  • Nos verbos regulares da segunda e da terceira conjugações, apresenta a marca -IA-.
  • Exemplos: cantava, estudava, entendia, partia.

PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO

  • Indica uma ação anterior a outra ação passada.
  • Na forma simples, apresenta regularmente a marca -RA- átona.
  • Na forma composta, utiliza ter ou haver no pretérito imperfeito, acompanhado do particípio.
  • Exemplos: cantara, fizera, tinha cantado, havia entendido.

CONCLUSÃO

O estudo dos pretéritos do indicativo exige mais do que a simples memorização das conjugações verbais.

É fundamental compreender o sentido que cada tempo produz no contexto.

Enquanto o pretérito perfeito apresenta uma ação passada como concluída, o pretérito imperfeito pode indicar habitualidade, continuidade ou descrição. Já o pretérito mais-que-perfeito estabelece uma relação de anterioridade entre acontecimentos passados.

Nas provas de concursos públicos, essa distinção é especialmente importante nas questões de reconhecimento verbal, interpretação de textos e reescrita de frases.

DICA FINAL: ao encontrar uma questão sobre tempos verbais, identifique a forma utilizada e, em seguida, observe como o acontecimento é apresentado no contexto. Essa associação entre morfologia e sentido é um dos caminhos mais seguros para resolver questões sobre o assunto.


Prof. Fabrício Dutra

Língua Portuguesa para concursos públicos

Quer dominar Língua Portuguesa para concursos? 26 módulos · +200 aulas · 9 bancas comentadas · Garantia 7 dias
Conhecer o Curso
Prof. Fabrício Dutra

Prof. Fabrício Dutra

Formado em Letras pela UFRJ, com mais de 16 anos dedicados ao ensino de Língua Portuguesa para concursos públicos. Especialista nas principais bancas do Brasil — CESPE, FGV, Quadrix e mais.

UFRJ · Letras 16+ anos 5.000+ alunos CESPE · FGV · Quadrix

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado.